Da gourmetização

Segue um texto que apareceu na minha timeline hoje, compartilhado do Thiago Batista, que por sua vez compartilhou do Wellington Wella Borges Costa, que por sua vez encaminhou de um tal de Mentor Neto (sem link). Copiado sem edição.

DA GURMETIZAÇÃO

Hoje em dia, todo mundo é Chef, já notou?
O sujeito faz um ovo frito sem queimar as bordinhas e, pimba! se intitula Chef Ovofrítico.
Porque não basta ser Chef, tem que ter alguma especialidade.
Chef Orgânico. Chef Confeiteiro. Chef Churrasqueiro. Chef Fitness. Personal Chef. Chef Salsicheiro.
O estranho é que quanto mais Chefs pipocam, mais eu vejo hamburguerias abrindo.
São Paulo, pelo menos, passa por uma epidemia de hamburguerias.
Faz sanduíche e é todo tatuado? É Chef Burguer. Fato.
E todos eles juram por Le Cordon Bleu que fazem o melhor hambúrguer da cidade.
Me escapa qual é o mistério de enfiar um hambúrguer entre dois pedaços de pão.
Numa dessas que costumo frequentar, o Chef insiste que eu customize meu hambúrguer.
Customize.
– Pão com ou sem gergelim?
Oi? Que importa? Bota o cazzo da carne, o bacon e não me enche.
Se eu desse atenção para o gergelim não pesaria 130kg.
O fato é que a indústria abraçou essa idéia com unhas e dentes.
Ou melhor, dentes e mais dentes.
Nos supermercados produtos com a assinatura de Chefs semiconhecidos se multiplicam exponencialmente.
Outro dia comprei uma muçarela de nozinho assinada por um Chef.
Um Chef famoso mundialmente vende frango na TV.
Frango.
Me desculpem as galinhas, mas não precisa complicar.
O melhor frango que você pode comer é o da televisão de cachorro da padaria mais próxima, todo mundo sabe disso.
Por falar em televisão, é impressionante a quantidade de programas sobre esse assunto.
Reality Shows, documentários, programas de receitas, talk shows, Chefs calouros.
Só o Chef Gordon Ramsey – eu contei – tem quatro programas diferentes no ar.
E o pior é que nesses programas a comida é tão linda que dá fome mesmo que você tenha acabado de jantar.
Vejam, não estou tentando desmerecer essa importante profissão.
Existem Chefs realmente especiais.
Comi num desses restaurantes bacanas outro dia.
Pelo preço de uma propina de empreiteira oferecem a você um menu degustação que é um jeito bonito de tolher seu direito de escolher o que quer comer.
Os sabores são exóticos, é verdade.
Uma delicia.
O problema são os tamanhos das porções.
Porque comida boa, para mim, é comida muita.
Coisa de gordo, me permitam.
Ali fui exposto ao contágio da anorexia.
Coisas que nunca ouvi falar em porções que eu mal conseguia ver.
Inclusive tive que colocar meus óculos de leitura para enxergar o que era desenho no prato e o que era comida.
Uma gota disso.
Um aroma daquilo.
Uma emulsão. Zinha.
Ingredientes que nunca ouvi falar.
Biroca de nhumo. Limberia de punha. Jujupa de sarapatiba.
No final me deram um pernilongo caramelizado para comer.
Temi comer Zika.
Aliás, se eu quisesse comer inseto teria ido para uma pousada em Ilha Bela.
No final conclui que devem gastar mais em detergente do que em ingredientes.
Mas enfim, meu ponto é que Chefs assim merecem prestígio pela pesquisa e pela sacada de marketing.
Aí tem o extremo oposto dos restaurantes bacanas.
Os Food Trucks.
Food Truck é o facelift da van-do-tiozinho-do-dog.
E o tiozinho-do-dog, por isso, agora também é Chef.
E como ele é Chef, os preços são os mesmos dos restaurantes bacanas dos Chefs que merecem prestígio.
Isso quando o Food Truck não pertence a um Chef que merece prestígio.
Percebe a confusão?
Como se não bastasse, numa genial sacada da prefeitura, transformaram os Food Trucks numa quermesse.
Food Truck só em locais confinados.
Pense comigo: para que sair de casa para comer em pé e caro num estacionamento?
Afinal, a vantagem do Food Truck deveria ser justamente estar no meio do seu caminho e ser barato.
Por tudo isso, digo que basta.
A partir de hoje vou esquecer das Olimpíadas, da política, da corrupção para exigir o que me faz realmente feliz: pizza.
Meia muçarela, meia calabresa e na minha casa, porque sou um purista.
É um inferno ser eu.

Gourmetização

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