Eu morri

TesseractEu morri. Ou melhor, achei que tivesse morrido. Como isso aconteceu não vem ao caso, o que vem ao caso é o que aconteceu depois. Sabe aquela história que falam sobre “sua vida passar diante dos seus olhos”? Pois foi bem isso que aconteceu. Ou melhor, continua acontecendo.

Nunca fui uma pessoa muito religiosa enquanto eu era apenas um ser da terceira dimensão. Porém, sempre acreditei que existia alguma inteligência suprema que havia criado “alguma coisa” antes de todas as coisas serem criadas, e que essa inteligência suprema nos olhava “de cima” como uma pessoa comum olha para um formigueiro depois de ter sido pisado, com a diferença de saber o passado, o presente e o futuro das formiguinhas que andam por ali, em movimentos aparentemente aleatórios e sem sentido.
Também sempre gostei muito de ficção científica, e assuntos como viagem no tempo e dimensões/universos paralelos sempre me chamaram muito a atenção. Quando li “Planolândia”, de Edwin A. Abbott, e soube que a primeira edição tinha sido escrita em 1884 (número que representa um conceito um tanto quanto obsoleto onde me encontro agora), fiquei abismado com a visão e a capacidade de abstração do autor na época, em colocar em dimensões diferentes, superiores e inferiores, um simples quadrado, e faze-lo questionar sua realidade e até mesmo a realidade de seres de dimensões superiores. Isso me fez questionar minha própria realidade, e de que forma seria possível “evoluir” (se bem que o termo não é bem esse) enquanto ser vivo.
Essa miscigenação interior minha entre o “divino” e o “científico” é que sempre me fez questionar certas coisas e não pensar feito um ignorante (no sentido de “ignorar”, “desconhecer”), pois também era um fã de história, e muita coisa que me contaram enquanto criança já não fazia mais sentido depois de descobrir a realidade dos fatos. Obviamente, por esse motivo eu não era exatamente bem-vindo em certos círculos familiares, pois minhas opiniões divergiam severamente de algumas carolas fanáticas que passaram sua vida toda jurando que a bíblia sagrada é um tomo imutável que sustenta todas as verdades. Por questão de respeito, eu já não me envolvia mais em certos assuntos e preferia não participar desse tipo de discussão.
Mas saindo das divagações religiosas e retornando à questão da dimensionalidade, é muito difícil, senão impossível, enquanto ser de terceira dimensão, imaginar uma dimensão (ou dimensões) superior. É como no livro de A. Abbott, no qual o quadrado bidimensional não tem consciência de sua tridimensionalidade (“altura”), sem a qual não poderia nem existir. Assim é com os seres tridimensionais, que possuem uma quarta dimensão sem se darem conta disso (agora eu sei). Também é difícil à esfera do livro explicar esse conceito ao quadrado, até que esta o retira de seu plano (seu mundo, sua realidade) e ele vê a terceira dimensão se abrir diante de seus olhos, momento no qual o quadrado considera a esfera como um deus. O interessante é que para quem está em Planolândia, o quadrado simplesmente desaparece (morre?) quando a esfera o retira de lá, mas ele está lá, vivo, só que fazendo parte de outra realidade, outras infinitas “planolândias” no mundo espacial tridimensional.
No livro, o quadrado teve a ajuda da esfera para descobrir a dimensão superior (lembrando que o livro é uma obra de ficção escrita em 1884, ainda que o autor tenha sido um visionário). No meu caso, e creio que posso falar por todos os seres tridimensionais conscientes, a ajuda não vem de fora, mas sim de uma condição intrínseca destes seres, que é a mortalidade.

          Ao passar para a quarta dimensão, descobri que todos somos deuses no ponto de vista dos seres tridimensionais. Temos acesso a qualquer ponto no espaço-tempo nas infinitas possibilidades de lugares e épocas, porém não podemos interferir neles, pois não fazemos mais parte deles (com raríssimas exceções). Também não podemos retornar ao nosso corpo carnal tridimensional que outrora nos pertencia, pois a evolução tem um custo muito alto (apesar de isto ser possível de outra forma que vou tentar explicar mais tarde). Tornamo-nos onipresentes e oniscientes, continuamos a observar nossos entes queridos e até mesmo ter acesso seus passados, presentes e futuros, porém sem ter poder de mudar nada. Seria inútil tentar explicar para vocês como isso funciona, pois seres tridimensionais simplesmente não podem ser retirados de sua realidade e voltar em segurança como foi o caso do quadrado do livro, e o cérebro tridimensional não é capaz de conceber o conceito. Não há como definir em palavras os conceitos primitivos de “destino”, “predestinação”, “coincidência” e “escolha” com a visão que tenho agora, pois mesmo agora, na quarta dimensão, há conceitos que não entendo e que devem fazer parte de dimensões ainda maiores.
Como eu gostaria de poder me expressar no mundo de vocês e dizer como foram construídas as pirâmides, quem ou o que as fez e como isso faz tão pouco tempo (se é que isso existe), o que são na verdade o que vocês chamam de OVNIs, quantos universos existem, desde quando estão lá e até quando existirão, qual é a matéria da qual são feitos os sonhos, o que é realmente o que vocês chamam de alma do ser humano e por que na verdade as teorias da criação e da evolução não são tão diferentes afinal de contas. Porém, não posso, e nem ao menos sei se isso é bom ou ruim. Não temos aqui a noção de tempo de vocês, nem de espaço, motivo pelo qual não podemos fisicamente modificar sua realidade.
Felizmente, alguns indivíduos de sua realidade possuem uma certa, digamos, propensão a entender melhor o mundo que os cerca, e isso os torna mais vulneráveis à nossa influência em certas épocas e momentos. Isso os faz se moverem adiante na evolução do conhecimento da espécie, tal como aconteceu com a roda, o fogo, a fissão nuclear e outras façanhas e descobertas humanas que vocês consideram como “casuais” ou “obras de muito estudo e pesquisa científica”. Porém, muitos dos propensos são tão inertes que jamais se darão conta disso, de certa forma balanceando o mundo e evitando uma evolução demasiada rápida para a sociedade. Obviamente que outras civilizações já atingiram pontos muito além da simplicidade que consigo enxergar na Terra nessa época de vocês, mas com sua limitação científica será impossível tomar conhecimento disso, e essas outras civilizações não têm o menor interesse em culturas tão subdesenvolvidas para fazerem contato. Mas não é bom que eu fale muito sobre isso aqui, o tempo deve seguir seu curso.

          A passagem, se é que pode ser definido assim, não foi tão dolorosa quanto eu imaginava. Não no sentido de dor física, porque aqui isso é nada mais que um conceito passado que não me lembro mais, mas no sentido de transição, de mudança, porque toda mudança causa desconforto. Lembram que comentei sobre “a vida passar diante dos meus olhos”? Foi o que aconteceu neste momento, que não sei se durou uma fração infinitesimal de segundo ou uma eternidade, mas quando me dei por mim eu já estava aqui, sabendo. Não há barreiras entre o ontem e o hoje, não há limites entre o planeta Terra e o centro do local que vocês chamam de z8_GND_5296 (ah se vocês soubessem…), e por isso pude ver toda minha vida nesse intervalo.
Há também a passagem “ao contrário”, ou seja, a transição entre minha condição atual e a de vocês, e que é bem mais dolorosa, segundo consta. Essa passagem ainda é um mistério para mim, uma vez que nunca a fiz, e seu funcionamento ainda não me está bem claro. O que eu sei é que vocês chamam isso de “reencarnação” (entre outros termos), apesar de não se darem conta de como acontece, e que um corpo tridimensional não pode carregar as lembranças dos períodos passados, apesar de alguns seres conseguirem lembrar de algumas coisas utilizando uma ajuda externa que vocês chamam de “regressão” (termo deveras simplório para explicar algo tão fantástico), porém estas lembranças raramente são longas o suficiente para se recordarem de detalhes mais reveladores. Há poucos casos em que quando a passagem acontece de forma rápida e inesperada (normalmente violenta), com pouco tempo de vida a criança se recorda de certos aspectos do final de sua vida passada com mais clareza, mas isso é tão raro que pode até ser desconsiderado. Daqui de onde estou não vejo nenhuma outra forma de trazer à tona estas memórias no mundo tridimensional, em nenhum ponto no espaço-tempo, talvez porque este mistério jamais será revelado.

          Enfim, eu morri. Mas estou mais vivo do que nunca.

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