Trabalho que ninguém quer

Acabei de ler uma matéria na Gazeta do Povo que confirma o que venho pensando (e comentando) há mais de 10 anos: tem vagas de emprego sobrando, mas pouca gente quer (ou pode) assumir.

Uma coisa é certa: independente do motivo (excesso de impostos, complicações burocráticas, etc.), fato é que as empresas cada vez mais querem pagar menos e exigir mais dos funcionários. Fato. E é exatamente este o foco da reportagem acima. A solução está na reportagem: Elas (as empresas) têm de se adaptar ao empregado.

Somente alguns comentários quanto a alguns dos setores apontados na reportagem:

– Supermercados: É de conhecimento geral (ao menos de quem vai ao supermercado com certa frequência) que cada vez que você vai os funcionários são diferentes, principalmente caixas e empacotadores (quando existem). Ainda assim, é comum observar cartazes de “contrata-se” afixados na entrada. Claro: pagando uma mixaria, obrigando os funcionários a cumprirem horários desumanos e exigindo mundos e fundos, não é de se admirar que ninguém queira ficar mais que 3 meses. Resultado: dezenas de caixas vazios e filas enormes nos poucos que tem alguém trabalhando, e obviamente muita insatisfação por parte dos clientes.

– Construção civil: Tenho dito há algum tempo que se eu tivesse um filho nesse tempo em que vivemos eu iria criar para ser pedreiro. Ou jardineiro. Ou serralheiro. Ou qualquer coisa que termine com “eiro” (menos “paneleiro”, se é que me entendem). Ou seja, mão de obra qualificada. O mercado já não aguenta mais tanto advogado, analista de sistemas, turismólogo (a profissão do momento) e outras profissões do tipo. Falta mão de obra, e muita. Ninguém mais quer fazer isso. E é exatamente por isso que daqui uns anos (essa tendência já começa a aparecer) quem souber levantar uma parede bem certinho vai ser contratado a preço de ouro.

– Tecnologia da Informação: Os anos 80 foram um boom de tecnologia (apesar do nosso atraso com relação ao exterior). Quem nasceu nessa época já “nasceu sabendo” mexer com computador, mesmo que na época estes nem existissem, ou fossem de difícil acesso. Isso fez com que os cursos de TI explodissem pelo Brasil 20 anos depois, trazendo ao mercado milhares de profissionais da área. Hoje já temos um cenário relativamente saturado, porque quem terminou faculdade em 2000 não se sujeita hoje a ser “apenas um programador”, e quem está terminando hoje também não devido aos baixos salários pagos (por conta do excesso de oferta). Houston, we have a problem.

– Saúde: O que falar da saúde? Vemos a todo momento médicos cobrando por atendimentos pelo SUS (que deveriam ser de graça), casos de cidades do interior oferecendo salários absurdamente altos (na faixa de R$ 8.000,00 ou mais) mas sem interessados, problemas com segurança dos profissonais dentro dos consultórios (especialmente em atendimentos do INSS) e o repasse ridículo dos planos de saúde para os profissionais. Não admira que seja difícil encontrar interessados.

– Educação: Outro problema crônico. Além dos baixos salários, problema que se arrasta há décadas, temos ainda a interferência do poder público e da sociedade, na forma de “direitos das crianças e dos adolescentes”, na maneira de educar dos professores, que são impedidos de tocar nos alunos e usar da autoridade dentro da sala de aula, sob título de “bullying”, a mania do momento. Some-se a isso pais despreparados que acham que a escola tem que educar, quando o papel dela na verdade é ensinar (duas coisas completamente diferentes uma da outra). Nota vermelha? Culpa do professor! “Vou falar com o diretor, onde já se viu!”. Vou parecer um velho falando isso, mas “no meu tempo” a culpa era do aluno! Hoje os pais são um tipo de escudo entre o aluno e o professor, do qual os alunos se valem para fazer o que bem entendem. Mais uma vez, não me admira se daqui a uns 10 anos não tiver mais quem queira ensinar nossos filhos.

Enfim, o problema é crônico e não vejo solução a curto prazo. Não existe receita mágica para resolver todos esses problemas, e parece que o poder público não está nem aí…

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