Quando o inesperado acontece

     Lá estava eu, deitado no chão da sala. As criaturas já haviam saído, exceto uma que permanecia no local para certificar-se de que todos estavam mortos. Felizmente sem que as criaturas percebessem eu havia conseguido me sujar com o sangue de meus amigos mortos (meu Deus, que horror!) para camuflar minha morte antes que eu fosse o próximo; com isso consegui enganar as criaturas a ponto delas não me perturbarem mais.

     Parecia que eu estava lá há dias, não podia me mover e quase nem sequer respirar, pois minha vida estava em jogo. Parecia um pesadelo que insistia em não terminar. Na posição em que estava eu podia perceber os passos da criatura, andando de um lado para outro da sala, ainda procurando algum ser vivo. Além disso via os olhos esbugalhados de Tom, que havia sido trucidado por uma das criaturas; suas pernas e braços estavam longe do corpo, arrancados que foram pelas pinças enormes daqueles seres hediondos. Marcus estava mais atrás, entre Tom e James. O sangue ainda saía de seu corpo através de rasgos feitos em seu peito por garras infernais; quase era possível ver seu coração dando os últimos sinais de vida em movimentos peristálticos, não fosse a massa de suas entranhas à mostra. James (ou melhor, o que sobrou dele) era identificável apenas pelos seus olhos azuis, pois o restante do corpo havia sido totalmente mutilado pelas criaturas. Ainda haviam mais, porém naquela posição estes foram os únicos que consegui reconhecer; não me atrevi a fazer um movimento sequer antes que a última criatura também abandonasse o local e voltasse ao seu maldito refúgio.

     Horas depois não se ouvia sequer um ruído na casa. “Finalmente as criaturas se foram”, pensei comigo… o cheiro no ambiente era simplesmente insuportável, como que um necrotério lotado de cadáveres após uma guerra. Ao me levantar, percebi que o estrago havia sido ainda maior, pois era difícil de andar por entre tantos pedaços de pessoas espalhados pelo chão. Na cozinha encontrei Ralph, pendurado na parede com um cutelo encravado sob o ombro direito… Jessica e Annie haviam sido esquartejadas, seus pedaços encontravam-se amontoados num canto de um dos quartos. Tudo o que eu queria era encontrar alguém vivo, mas tudo que eu via era morte e sangue; minha sanidade já estava seriamente abalada somente pela visão daquelas criaturas das trevas, mas ver as
cenas que eu estava vendo não eram definitivamente consoladoras.

Ao que eu pude reparar antes de me fingir de morto, as criaturas tinham cerca de 2m de altura e 1m de largura, duas pernas com patas de cerca de 40cm de comprimento cada e 4 dedos com afiadas unhas em cada uma delas (disso eu lembro bem, pois quando estava deitado na sala pude perceber as unhas monstruosas passando perto de meu rosto). No lugar dos braços haviam protuberâncias de cerca de 80cm de comprimento com uma articulação no meio, com pinças como que de caranguejos nas extremidades, fortes como alicates de cerca. Do peito ainda saíam mais 4 protuberâncias semelhantes às das pinças, 2 de cada lado do corpo uniformemente distribuídos na lateral. Estas possuíam garras semelhantes a mãos mas muito mais horríveis, suas 4 extremidades eram compostas de unhas afiadas como lâminas. Da cabeça, que se confundia com o corpo como um todo pois as criaturas não possuíam ombros, saíam dois chifres curtos de 20cm de comprimento de cada lado, semelhantes a chifres de boi ou búfalos. Os olhos, negros como a noite, mediam cerca de 6cm em formato oval na vertical, separados por um orifício que aparentemente era o nariz. De relance pude perceber que a boca era um buraco na cabeça; não consegui precisar o tamanho mas possuía em seu interior miríades de dentes afiados como que de tubarões assassinos, bem como mandíbulas capazes de esmagar estruturas de aço com facilidade. Parecia uma verdadeira máquina de matar.

     Onde foi que nos metemos??, pensei comigo naquele instante, já deixando a casa com repugnância por ver mortos todos aqueles a quem eu estimava (alguns dos quais nem precisariam estar ali), e com a certeza de que não havia mais ninguém vivo lá comecei a sair da casa em direção à estrada, mesmo sem ter a mínima ideia de como voltar à cidade.

     O que me incomodava nem era o fato de eu ter sido um dos responsáveis pelo que aconteceu (mesmo que de forma coadjuvante) e nem por não termos tido sucesso na missão, e sim que o procedimento tenha saído completamente de nosso controle! Aquele maldito livro não dizia que tinham que ser 5 pessoas, das quais 2 mulheres? Não falava que os objetos tinham que ser dispostos naquela forma exata, naquele horário e naquela latitude e longitude? Só o que pude pensar é que o infeliz que escreveu aquele livro, que com certeza utilizou informações de outro muito mais sinistro e antigo, omitiu ou adulterou informações para propositalmente criar o portal que trouxe aquelas malditas criaturas das regiões de Azathoth para nosso mundo, e fizemos exatamente o que ele quis!

     É claro, eu sabia que poderiam haver efeitos colaterais, mas jamais pensei que algo como aquilo poderia acontecer; parece que eles estavam de tocaia, apenas aguardando a abertura do portal para nos atacar! Teoricamente não havia chance do portal se abrir tanto de forma a permitir sequer a entrada de uma daquelas criaturas para o nosso mundo: a ideia original era apenas conseguir trazer uma das Flautas do Tempo que faz com que Azatoth permaneça letárgico no centro do Caos e de lá não saia e nem nunca se dê conta de que existe. Não está claro o que esse artefato pode produzir em nosso mundo e em nossa realidade, até porque por muito pouco não conseguimos atingir o objetivo, mas o fato é que pesquisas apontam (e aquele livro era muito claro quanto a isso) que o possuidor de tal objeto teria o total controle sobre o espaço, o tempo e a realidade, o que obviamente desperta o interesse da humanidade desde os primórdios, e finalmente conseguimos a ciência e a tecnologia para obte-la, mas mesmo assim falhamos miseravelmente!

     A não ser que o objetivo do autor tenha sido exatamente este, o de apontar um suposto caminho que levaria ao objeto mas que na última hora trairia quem tentasse, como um guardião velado que estende a mão para o ladrão para no último momento arrasta-lo para a escuridão infinita… nesse caso, fomos os seres humanos que mais se aproximaram do objetivo, mas agora, sem o livro que contém as instruções que permitem repetir a experiência (não faço ideia onde ele foi parar), e sem ter como informar aos desavisados
que as instruções estão incorretas e que segui-las os levará direto à morte, só me resta esperar que ninguém mais seja tolo o bastante para tentar…

Anos mais tarde, um certo livro antigo foi retirado de uma certa biblioteca por um grupo de 5 pessoas, entre elas 2 mulheres…

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